quinta-feira, agosto 20, 2015

As frustrações da vida

Dizem que um homem, para ser completo, tem que chegar ao fim da vida tendo escrito um livro, feito um filho e plantado uma árvore. Talvez esteja meio ultrapassado, porque, com esta onda tecnológica, é possível que o livro até deixe de existir. De qualquer forma, a obra está quase escrita, mas há tempo, porque não tenho planos de morrer logo.
Sobre ter um filho, espero que possa ser considerado o fato de ter cuidado - com zelo - de um gato, porque acho que é o mais próximo que chegarei, neste desafio da vida. A árvore já foi plantada. Não sei se ainda existe, mas posso providenciar outras. Não tenho a mão muito boa para isto. Se plantar tiririca, ela morre - por mais que me esforce em aguar, manter limpo. A planta deve sentir que não tenho habilidade alguma para a produção primária.
Assim, por ora, percebo que estou longe de ser um homem completo. Beiro à frustração humana. O livro ainda não está pronto, o filho vou aguardar para a próxima encarnação, e a árvore nem sei se existe. Mas, estas, são frustrações baseadas no que dizem ser o certo. Como minha consideração por estes paradigmas sociais é semelhante ao apreço que tenho pelo cocô - ou seja, ele se apresenta e aciono a descarga, mandando pelo esgoto -, as ignoro.
Prefiro pensar em vencer outras frustrações, como o fato de não conseguir colocar um quadro na parede (tenho um exemplar fazendo aniversário, no chão do quarto, porque não sei como postar a tela); como fazer instalações elétricas (lê-se até trocar resistência de chuveiro); como visualizar as mudanças que tenho vontade de fazer no apartamento (aquela imagem mental que os arquitetos conseguem com muita tranquilidade); como ter a paciência de separar as roupas para que não fiquem com bolinhas ou manchadas, quando estão sendo lavadas; parando para pensar, são tantas.
Quantas coisas gostaria de saber fazer... tem vez que olho para o gato (Tom) me observando e o imagino pensando: "Lá vai ele tentar, novamente, fazer o que não sabe". Pois foi assim que venci alguns desafios. Sem tutorial, o churrasco ficou de fundamento (a carne era boa - é verdade); o bolo cresceu e ficou saboroso; a máquina que lava as roupas está no local certo, funcionando como manda o figurino; até a pipoca ganhou caramelo.
Agora, paro de escrever para continuar a derrubar barreiras, vencer desafios e frustrar as frustrações impostas pela vida. Vai que, em uma destas, nasce um filho...

segunda-feira, agosto 10, 2015

O nostálgico Facebook

Estabelecer rotinas não é algo que incomoda. A palavra assusta, lembra monotonia, mas é apenas uma forma de organizar obrigações e hábitos que entendemos ser de bom tom. A academia é um exemplo. Você estabelece horário e acaba indo (dentro do que lhe foi estipulado), como rotina, mas é prazeroso, permite inflar os músculos e esvaziar a cabeça, um antidepressivo de grande utilidade e baixo custo.
Além da questão física, uma outra mania é a vontade de sempre estar bem informado. Assim, logo que acordo, acesso o celular e confiro o que já é notícia em nosso jornal (O Informativo do Vale), Facebook, Twitter, além dos aplicativos, que trazem de tudo um pouco. São consumidos alguns minutos, mas que permitem ter uma ideia do que vem pela frente.
Esta agilidade percebida nos meios de comunicação, que vejo pela manhã e que se atualiza a todo segundo, faz com que o passado, mesmo que recente, pareça muito longínquo. Eis que um dos maiores astros do momento, no mundo virtual, o Face, apresenta a possibilidade de você recuperar algumas memórias, sem que tenha que perder tempo ou vasculhar em seu histórico. Faz o passado virar presente.
Ontem, ele me permitiu relembrar de um momento bacana, em que dividia - comigo - uma garrafa de Casillero del Diablo; dividia - com outros - os meus escritos; e que dividi - com os amigos virtuais (ou reais), em fotografia. Vale um agradecimento ao Facebook, que além de lembrar do dia dos aniversários também serve para nostálgicos momentos "remember".

segunda-feira, agosto 03, 2015

Tchaaaaau, pai!

Usar o transporte coletivo é a oportunidade de vivenciar o diferente, perceber como as pessoas agem, pensam, se posicionam sobre os mais variados assuntos. Para quem gosta de moda, pelas poltronas e corredores dos ônibus passa uma imensidade de estilos. É o atual, o psicodélico, o antigo - vintage, o antigo - antiquado, o cabelo pintado, o sem cabelo, a calça nova, a rasgada, a curta, a de cintura baixa e aquela que sufoca o peito da figura. Há de tudo e de todas as idades.
E por falar em idade, não creio estar em meu destino ser pai. Pelo menos, não parece estar nos planos recentes - e, em se contando o adiantado da idade, é considerado justo abandonar esta ideia. Apesar de não ter a vocação para a paternidade, a considero uma das situações mais lindas que os seres podem viver. A possibilidade de saber que aquela pessoa nasceu de você (junto com a mãe, é claro) é algo sensacional. E aquele bebezinho, tão pequenino, vira um ser tão grande, cheio de opiniões, atitudes, capaz de fazer mais bebezinhos.
Mas o que tem de relação entre o coletivo e a paternidade? Pois foi em um ônibus que entrou um casal e sua filha pequena. Não mais do que três anos. Muito cheio, o veículo estava com diversos sons - do motor, das pessoas falando, do rádio -, o que inviabilizava ouvir a menina. Entretanto, conforme foram descendo alguns, se percebeu, novamente, a existência da criança, que foi imortalizada no instante em que seu pai desceu (mãe e menina ficaram no ônibus). Um silêncio estabeleceu-se no local. O pai cuida dos degraus para não cair; desce concentrado e não se despede. Eis que, do fundo do ônibus vem uma demonstração de carinho em caixa-alta. "TCHAAAAAAU, PAI!", disse a pequena. Ela não ouviria a resposta sonora, então o pai deu um jeito: acenou para aquela que deve ser sua maior alegria.