quinta-feira, maio 28, 2015

Os medos

Onde está escrito que o cara tem que ser do tipo que se possa dizer: "Este é corajoso!"? Como diz Lênio Fregapani, não há problema em preferir ser um covarde vivo do que um herói morto. Seria muita covardia se reservar ao direito de evitar coisas que podem, de alguma forma, machucar? Não há motivos para se atirar de paraquedas, enfrentar um bungee jump, dar ponta de uma cachoeira - sem saber o que espera, lá embaixo -, praticar luta contra criaturas como os astros do UFC. Nada contra quem faz, mas os pés bem acomodados no chão, mesmo que descalços, fazem parte de uma pintura de vida interessante.
Pode-se dizer, assim, que não foi vivido o ápice da adrenalina. Mas quem disse que é preciso? E não se trata de conformismo exacerbado; apenas uma forma de entender a vida com pouco mais de  tranquilidade, em que os medos são vencidos aos poucos, assim como os projetos são formatados para atender as necessidades e dar um passo adiante. É assim que se desenha o futuro: vivendo o presente, vencendo os medos do passado e firmando o pé no amanhã.
Derrubar a timidez; subir ao palco com o microfone e comandar uma multidão; encarar a lente de uma câmera de televisão; remar, à noite, sobre uma prancha no mar; caminhar sobre os trilhos do V13, olhar para baixo e fazer aquela foto que vai deixar todo mundo afim de dar um like; dar um beijo na pessoa e se sentir protegido como se tivesse em uma cúpula, e o melhor, ter coragem para dizer isto... A vida já foi de medos menores ou maiores, mas nunca de tanta coragem.

segunda-feira, maio 25, 2015

O presente da dinda Cissa

Existem situações, na nossa vida, que ficam na lembrança. Algumas delas nos batem à memória, porque são agradáveis, tiveram um sabor especial, aroma diferenciado ou, por algum motivo, nos fizeram felizes. Existem, por outro lado, aqueles que martelam nossa cabeça e ficam como cicatrizes, ou tatuagens, para sempre. É a este último tipo, que me refiro.
Um dia, aniversário da dinda Cissa - madrinha de minha irmã - eu tinha ficado encarregado de levar a mana até a festa, no meio da tarde. Enfeitei a pequena, fomos para a casa da vó, de onde partiríamos para a comemoração.
O presente estava em uma sacola. Era um destes vasinhos de barro com flores. Para evitar que a afilhada o quebrasse, tirei o embrulho de suas mãos, a deixando um pouco frustrada. Devia ter deixado. Pouco antes de sairmos, não sei por qual motivo, fui subir no murinho da área, com o presente pendurado em uma das mãos. A sacola balançou, bateu no muro e o vaso espatifou-se. Minha irmã chorou tremendamente. Tive vontade de fazer o mesmo. Afinal, que grande cuidador era eu? Frustrei uma criança, que não se sentiu confiante para preservar o presente e, em seguida, lhe mostrei minha irresponsabilidade - tudo que eu não deveria. Fomos à festa; ficamos felizes pela comemoração, mas tristes por ter ido sem o presente, que não tinha valor monetário, mas sentimental. Se tem algo que fiz e me arrependo, nesta vida, é isto: acabei com o presente da dinda Cissa. 😞

domingo, maio 24, 2015

Eu só quero chocolate...

Não quero chá; não quero café; não quero Coca Cola. Quero chocolate. Sim. Chocolate - este desaforado alimento calórico, que não deve ser de Deus. A constatação do afastamento divino não é pelo sabor, porque se esta fosse a questão, certamente, seria distribuído no paraíso. É pelo pecado da gula.
Não entendo o motivo da tal cobra, no Éden, ter oferecido maçã para Eva. Corria o risco da primeira mulher do mundo ser como eu: não tolerar o ruído da mordida da maçã. A obstinada serpente veria seu ardiloso plano correr água abaixo. Se o capeta fosse esperto, de fato, daria um jeito de inserir chocolate na história. Adão e Eva, ambos nus e melecados de chocolate, adocicados ou mesmo com aquela sensação do meio-amargo... seria a própria tentação.
Talvez, assim, em uma reação revanchista, Deus exterminasse o cacau do mundo, fazendo com que o tal líquido, pasta ou barra, ficasse apenas no imaginário humano que é virtuoso, mas ainda não consegue sentir sabor. Que nada, a cobra não se deteve a vasculhar as delícias que a natureza tem a oferecer e pegou a primeira fruta que apareceu pela frente: vai maçã, mesmo. Eva, boba, caiu feito uma heliothis virescens (larva da maçã).
E nós, hoje, nos perdemos no chocolate - a cada dia menos chocolate, mas mais gostoso; a cada dia mais tentador e nas mais variadas opções de formato e tamanho. Derretendo no fondue, em cascata nas vitrines de lojas especializadas, nas barras, nas trufas, ao leite, no negrinho (brigadeiro), nos dedos melecados, ele é um desbunde, um atentado à gulodice.
E viva Tim Maia, que cantou para todo mundo ouvir uma ode ao chocolate. "Não adianta vir com guaraná pra mim. É chocolate o que eu quero beber".
 

terça-feira, maio 19, 2015

A busca pela solidão no coletivo

O transporte coletivo permite o acompanhamento das mais diferentes situações. Algumas são engraçadas, outras tristes; umas envergonham, outras encorajam. A situação possibilita, a quem utiliza o tempo entre um ponto e outro, a coleta de um material riquíssimo para análise.
Existe, por exemplo, o fato de que as pessoas entram no coletivo, o que dá a ideia de pluralidade, para buscar o singular, a solidão. Enquanto tiver um par de poltronas vazias, ninguém se atreve a sentar ao lado de outra pessoa (a não ser que tenha chegado junto). Em alguns casos, mesmo tendo banco desocupado, preferem ficar em pé.
As pessoas parecem estar com medo dos seus pares. Na era do mundo digital, no período da interação e da liberdade - até libertinagem -, ainda se busca a zona de conforto, o isolamento e se faz, desta forma, a ode à introspecção. Isto representa seres melhores consigo? Não é o que parece nas demais situações do cotidiano. Cada vez estão menos sociáveis e mais próximos dos homens das cavernas.

Preguiçoso incorrigível

Juro, mesmo mentindo, juro - como canta Moacir Franco -, que tento parar para escrever, aqui. Disperso, esqueço, deixo de lado, como se fosse uma roupa, atirada no canto do armário, sem a mínima chance de tentar voltar a usá-la, mas com aquele egoísta sentimento de posse, que impede de passar adiante. Eis meu blog e a sua vida solitária. Se chorasse pelo esquecimento, estaria desidratado, pobre.